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Leitura de fevereiro | A insustentável leveza do ser | Milan Kundera

Olá gente,

Hoje vim aqui pra falar um pouquinho a respeito das minhas impressões do livro "A Insustentável Leveza do Ser" do Milan Kundera. E quando digo impressões, quero dizer que não almejo fazer aqui uma resenha dele. Não sei se eu conseguiria fazer isso da forma correta. 

Com isso, já estou dizendo que gostei da leitura escolhida para o mês de fevereiro - não tanto quanto eu esperava, mas gostei - e também estou dizendo que a experiência foi diferente pra mim. Eu tinha muitas expectativas e algumas foram alcançadas, outras nem tanto.

Isso não significa, porém, que ele é ruim. Ao contrário. Apenas significa que para mim foi uma experiência nova, estranha ao que estava acostumada até então naquilo que se refere a leitura. E por isso até que eu custei a começar esse post, pra falar a verdade. Não sabia ao certo o que dizer dele, ao fim da leitura. Precisei de um tempo pra refletir. 

Passados alguns dias, eu ainda não sei ao certo o que dizer, mas não quero deixar passar a memória fresca do livro e então, preciso dizer algo agora, conversar sobre esse volume.

Certo pra vocês?

Então vamos lá!

Livro do Milan Kundera - Creditos: Divulgação


Bueno, o livro publicado em 1984 nos apresenta a quatro principais personagens: Tomas, Sabina, Tereza e Franz. E a história gira em torno deles, da vida deles, das decisões, pensamentos e reflexões. Em muitos casos, a mesma situação vivida por dois personagens é contada do ponto de vista de cada um deles. Isso é bem bacana.

Apesar de distintas, as vidas desses personagens se cruzam em vários momentos. Tomas é um médico e Tereza é uma fotógrafa, eles são um casal durante toda a história, mas seu relacionamento é aberto, digamos assim, porque Tomas se relaciona com diversas outras mulheres. Uma delas é Sabina, uma artista plástica muito bem sucedida e independente. E Franz? Ele é um professor/pesquisador, também casado, mas em que determinado momento se apaixona por Sabina a ponto de separar-se de sua mulher.

Esses são, porém, apenas alguns dos elementos do livro. Há também dois aspectos que se destacam dentro do volume e que eu considero ainda mais importantes do que esses personagens propriamente ditos. Um deles é o aspecto histórico e o outro é o aspecto reflexivo. 

ASPECTO HISTÓRICO

A história se passa em Praga na década de 60, e mostra o antes e o durante da invasão russa à Tchecolosváquia. E somos apresentados a essa realidade ditatorial. Muitos acontecimentos da vida dos personagens se desenrolam em função disso. Carreiras profissionais se alteram, relacionamentos, rotinas, pensamentos, ações. Como é próprio de uma ditadura. E isso é importante de ser observado, porque conhecer a história é muito importante. 

ASPECTO REFLEXIVO

Dentro desse aspecto, podemos fazer duas divisões. 

A primeira delas se refere à própria literatura. Milan apresenta esses personagens como criações suas, como possibilidades de vida diante dos acontecimentos impostos à eles. De um forma geral, é o que os autores fazem. Criam uma situação e colocam personagens nela, refletindo e escrevendo sobre quais seriam as suas reações e atitudes. Milan, porém, deixa isso claro. Apresenta seus personagens como criações suas. E isso foi muito bacana. Faz pensar a escrita e a leitura de uma forma diferente. 

A segunda das divisões se refere a reflexões a respeito da vida mesmo, das situações cotidianas, da guerra, da opressão. Nos apresenta a ideias de filósofos como Parmênides (dualidades ontológicas como o frio e o quente, o claro e o escuro) e outros autores como Nietzsche (o eterno retorno) e aplica isso na realidade criada para esses personagens e na narrativa, como no trecho de abertura do livro: 
"O eterno retorno é uma ideia misteriosa e, com ela, Nietzsche pôs muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir como foi vivido e que tal repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?”
Uma das reflexões é justamente sobre o peso e a leveza do ser, que dá origem ao título. Ela engloba, de uma forma geral, todas as demais reflexões e situações. E digo mais: acredito que cada leitor haverá de encontrar na leitura sua própria explicação para o peso e a leveza, tendo como base seu próprio entendimento da história e suas próprias experiências. 
"Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”
Eis uma das questões postas.

E por isso, quando digo que esse livro tem um forte aspecto reflexivo, quero dizer que ele nos faz questionar situações de nossa própria existência também. Como não pensar em si próprio, em nossas próprias escolhas e atitudes, ou em nossos próprios fardos diante desse tipo de colocação?

ACHISMOS MEUS

De uma forma geral, acho que foram esses questionamentos e reflexões que "salvaram" o livro para mim, porque pra ser sincera no início do livro custei a encontrar o sentido dele. Você avança na leitura e não percebe um enredo claro - e de fato não há, apesar de conseguirmos entender as relações entre os personagens. Isso foi diferente pra mim. Em função disso cheguei a achar que eu não gostaria do livro e só continuei porque eu já havia ouvido falar tanto e tão bem dele. 

Por fim, não me arrependi. Não é de fato o meu estilo preferido de literatura. Mas é o tipo de que exige do leitor, o intriga, o faz pensar e amplia seus horizontes. Acho que não fiquei apaixonada por ele, e acho que não vou lê-lo novamente algum dia, mas indico a leitura, sim. Acho que é importante que cada um tire suas próprias conclusões. Além disso, tempo perdido não será.

A conclusão dele, a meu ver, ficou bastante interessante. Com sutileza são retomados alguns pontos abordados ao longo de todo o volume, entrando justamente nesse clima de "eterno retorno" do Nietzsche. Dessa forma, acho que o livro ficou bem fechadinho. 

Certo, gente?
Alguém mais ai já leu esse livro?
Me digam o que acharam.

Já ouvi falar que essa é uma história que as pessoas amam ou odeiam. Eu acho que não é necessariamente o meu caso, mas se eu tivesse que escolher um lado, eu acho que ficaria com aqueles que não gostaram.

Mas sei que há os que amam. Aliás, o amigo que me emprestou o livro é uma delas.
Contem ai as suas percepções. Gostaria de saber o ponto de vista de vocês.
Pode ser que vocês tenham percebido algo que eu não percebi, não é mesmo?

Por hoje é isso.
Beijos mil.

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