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Literatura que transforma

Sempre achei que a literatura tem um poder incrível de nos transformar. Sempre achei que ela nos torna mais humanos, nos dá grandes lições, nos mostra como agir melhor. Nos ensina, basicamente, com as experiências dos outros, com os erros e com os acertos deles. Quando essa literatura é baseada em fatos reais, então, a profundidade desses ensinamentos é ainda maior. E esse é o caso do livro “Todo dia a mesma noite – a história não contada da Boate Kiss”. 

Na verdade, eu ainda não o li – não por falta de vontade, mas por falta de oportunidade – e portanto, não quero aqui fazer uma resenha dele. Mas quero falar da palestra da qual participei na noite da última sexta-feira, dia 27 de abril, na Unisc. Esteve por aqui a jornalista e escritora Daniela Arbex, autora do volume. Ela falou, entre outras coisas, do processo de produção desse livro, do papel do jornalismo investigativo – que foi necessário na composição do volume –, e principalmente sobre as histórias contadas nele.

Médico Carlos Dornelles deu seu depoimento - Crédito Luana Ciecelski

São histórias que partem dos mais variados pontos de vista, conforme explicou Daniela. Profissionais da saúde, Bombeiros, familiares e sobreviventes foram entrevistados. Cada um deles contou o que viu naquela noite, o que sentiu e o que fez. Cinco anos depois, cada um deles pode desabafar. 

O destaque vai para o médico do Samu em Santa Maria, Carlos Dornelles, que participou da palestra e deu seu depoimento ao vivo e a cores. Foi um dos momentos mais emocionantes da noite. Ele próprio emocionado, relembrou o antes e o depois do incêndio, e as centenas de tentativas de salvar vidas. Falou sobre dor e a frustração de não conseguir salvar todos. Outro destaque foi o desabafo do major Gerson da Rosa Pereira, que estava na plateia. 

Atualmente comandante do 6º Comando Regional de Bombeiros Militares de Santa Cruz do Sul, ele era o comandante em Santa Maria na época da tragédia e falou sobre o trabalho que foi feito naquela noite, destacando que nenhum esforço foi negado. Também falou sobre sua própria dor e sobre o peso que ainda carrega consigo por causa do julgamento feito pela mídia. 

Diante de tudo isso, a lição que essa palestra, baseada nessas histórias deixou, foi a mais bonita possível: a de não julgar. Tendemos a fazer isso na hora da dor. Queremos responsabilizar algo ou alguém. Mas se olharmos do ponto de vista dos outros, veremos que eles não são diferentes de nós, e que se erram, erram como nós mesmos. A palestra terminou com aplausos de pé. Terminou com um anfiteatro transformado pelas histórias, pela literatura.

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