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Novembro para relembrar: 90 anos de Macunaíma e Manifesto Antropófago

Em 2018, dois textos seminais da literatura brasileira completam noventa anos: Macunaíma e Manifesto Antropófago. Escritos em 1928, os dois fazem parte do Modernismo, mas foi o último, obra de Oswald de Andrade, que inaugurou o movimento de vanguarda que veio a ser conhecido por esse nome.

Ainda dá tempo de ler os dois antes do fim do ano! O que acha?



Indicações

Mário de Andrade publicou Macunaíma em 1928. O livro foi um acontecimento. Debochado e intensamente brasileiro — ainda que muito pouco ou nada nacionalista —, o romance é ainda hoje um dos textos fundamentais do nosso Modernismo. E continua a influenciar as mais diversas manifestações artísticas. Nascido nas profundezas da Amazônia, o herói de Mário de Andrade é cheio de contradições, assim como o país que lhe serve de berço. É adoravelmente mentiroso, safado, preguiçoso e boca-suja. Suas peripécias vêm embaladas numa linguagem rapsódica e inventiva, um marco das pesquisas de seu autor em torno de uma identidade linguística brasileira.











Nesses textos fundamentais do modernismo, estão congregadas as ideias certeiras e beligerantes do autor de Serafim Ponte Grande. Ao louvar “a contribuição milionária de todos os erros”, Oswald de Andrade defendeu, com verve e absoluta originalidade, a fusão de elementos eruditos e populares, a incorporação da oralidade e a abolição de todas as fórmulas pré-fabricadas para expressar o mundo. São ideias indispensáveis para quem procura compreender a cultura brasileira contemporânea.


Este volume reúne o "Manifesto Antropófago" e o "Manifesto da Poesia Pau Brasil", além de sete textos preciosos não tão estudados da lavra oswaldiana. Nesta seleta, é possível ter acesso ao projeto estético-cultural e à crítica contundente sobre a noção de identidade do mais transgressor dos modernistas.






Confira um trecho de Macunaíma

1. Macunaíma

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:
— Ai! que preguiça!…
e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força do homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaiamuns diz-que habitando a água doce por lá. No mocambo si alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém respeitava os velhos e frequentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacororô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo.

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