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O sol é para todos | Harper Lee | Leitura de fevereiro

A leitura do mês de fevereiro foi Prêmio Pulitzer de Literatura em 1961. E receber um prêmio desses nunca é pouca coisa. Isso nos deixa cheios de expectativas em relação ao livro e isso nos diz que, de uma forma ou de outra, esse possivelmente será um livro bom, uma leitura marcante. E o Sol é para todos da Harper Lee não deixa a desejar.



Quem passa os olhos rapidamente por ele se encanta com a narrativa leve e bonita, com o retrato da infância feito pela autora, porque passam-se os séculos mas a infância sempre é infância e um leitor que tenha passado de seus 15 anos, com certeza se identificará de alguma forma com esse registro. No entanto quem se atenta ao enredo com mais cuidado, é presenteado ainda mais lindamente com um conjunto de lições da maior importância. Principalmente a respeito da natureza humana e de suas relações.

Nessa história, logo de cara somos apresentados à família Finch. Ela é composta por Aticcus, o pai, Jem o irmão mais velho e Scout, a menina e irmã mais nova, narradora dessa história. A mãe de Jem e Scout, como descobrimos logo, morreu quando ambos eram bem pequenos. Eles foram criados pelo pai e por uma negra que trabalha na casa, chamada Calpúrnia, que faz as vezes de mãe exigente na maior parte das situações.

A história se passa no período de cerca de 3 anos, em meados da década de 1930 na cidade de Maycomb, localizada no Estado do Alabama, ao Sul dos Estados Unidos, portanto. A história é bastante explicativa por si só, mas para compreendê-la bem, é preciso ter em mente que os estados sul-americanos demoraram muito para tratar os negros com um pouco mais de igualdade. Na verdade, assim como no Brasil, ainda hoje o tratamento não é 100% igual, mas ainda em décadas bem recentes (falo dos anos 70, 80), havia uma certa segregação social (banheiros, refeitórios e ambientes de trabalho separados, por exemplo). Na década de 30 isso era muito pior, é claro. Os negros eram vistos praticamente como escravos ainda. A eles não era dado nenhum direito.

E é justamente sobre isso que trata essa história. Sobre as diferenças sociais. Sobre a importância do negro naquela sociedade, mas em contrapartida sua gigantesca discriminação. É sobre o quanto sofreram os negros. É sobre a ignorância, egoísmo e ganância humana. É sobre a cultura e eu diria que também é sobre a necessidade de sermos críticos em relação à nossa cultura, percebendo quando ela está errada, apesar da tradição de gerações e apesar da nossa criação para aceitar as coisas como elas são.

O enredo é dividido em duas partes. No primeiro deles a gente acompanha a rotina da família Finch dentro da cidade, as travessuras das crianças juntamente com o amigo Dill - um vizinho que passa as férias em Maycomb todos os anos - um pouco de suas atividades escolares e até algumas mudanças paradigmáticas que estavam acontecendo na educação naquele período. Dessa forma, ficamos conhecendo suas personalidades e relação com a cidade. Ficamos conhecendo um pouco mais da própria cidade também. E aos poucos vamos nos preparando para compreender o que vem a seguir, na segunda parte.

A segunda parte volta a sua atenção principalmente para um julgamento. Aticcus é advogado e ele fica designado a defender um negro chamado Tom Robinson. Ele é acusado de ter estuprado uma jovem branca, mas jura que isso não é verdade. As pessoas, de uma forma geral não se importam com os fatos em si. Importa sua cor e apenas isso. Ele é negro e, criminoso ou não, merece a pena de morte. E até mesmo outros advogados pensam assim. Mas não Aticcus. Logo descobre-se que qualquer outro profissional não faria muito esforço para defendê-lo perante o juiz. Mas não Aticcus.

Aticcus é à frente de seu tempo, um dos personagens mais humanos que já tive o prazer de conhecer em livros, e logo deixa claro que irá fazer seu trabalho, como faria com qualquer outra pessoa. Isso lhe rende algumas inimizades e problemas até mesmo para Jem e Scout que passam a ser perseguidos e ofendidos por colegas de escola. Maycomb nunca vira um negro sendo defendido. Aquela família, que defendia negros, era muito estranha, era o que pensavam aqueles que ofendiam aos Finch. E as crianças precisam aprender a lidar com isso. Precisam aprender a ser à frente do tempo como o pai, respeitando as diferenças.

E assim, acompanhamos o desfecho. Não vou falar mais sobre o enredo para não dar spoilers, mas é importante destacar que o julgamento, independentemente de seu resultado, serve como um divisor de águas para a comunidade, e também para a vida das crianças. Durante todo o caminho percorrido pelas personagens, eles aprendem e nos ensinam sobre a empatia, a tolerância, o respeito ao próximo. Durante todo o livro, mais principalmente ao final, nos pegamos refletindo sobre o quão lento foi o processo de reconhecimento da igualdade dos negros, e sobre como foi importante cada pequeno ato revolucionário, por parte de cada mente mais aberta que houve na história da humanidade.

Isso vale, é claro, também para a questão feminina, que não é o centro dessa história, mas que também é citada aqui, ainda que com mais sutileza. Percebe-se a diferença de interesses das gerações, a vontade da jovem Scout de ser mais do que uma dona de casa, as discussões por suas atitudes e sua vontade de não ser tanto como uma menina nos estereótipos daquele tempo. Percebe-se o seu amadurecimento, ainda que pequeno, na direção de ser uma mulher, mas uma mulher diferente daquelas com as quais ela convive, como a própria tia que chega a Maycomb para educá-la como uma dama em meados da história.

Em sua língua original, O Sol é para todos leva o nome de To Kill a Mockingbird, que pode ser traduzido literalmente como "Matar o passarinho". Quem ler a história vai perceber em meados do texto uma referência a esse título, porque Jem e Aticcus discutem sobre o quão triste é matar um rouxinol que não faz nada de ruim para ninguém e apenas canta para todos. Mais adiante também há uma comparação entre o caso de Tom Robinson e essa conversa sobre o rouxinol. A verdade porém, é que essa expressão - To Kill a Mockingbird - também pode ser traduzida como "Matar a Esperança". E isso faz todo o sentido. Tanto quanto "O Sol é para todos" que também não ficou ruim.

Dito isso, me despeço por hoje dizendo que esse é um livro que indico fortemente. Para todas as idades. É uma leitura que todos devem fazer em algum momento da vida. Porque é linda mesmo. Ao fim da leitura conclui-se que o prêmio recebido é mais do que merecido.

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