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Leitura concluída: O diário da queda, de Michel Laub ✔


Essa foi uma leitura que me surpreendeu muito. Não conhecia esse autor e acabei lendo dois livros dele pra uma disciplina do mestrado (o outro é o "Maça envenenada" sobre o qual conversaremos em breve). E o que mais surpreende é a profundidade com que ele consegue abordar as questões humanas.

O livro é uma espécie de diário, como o nome já diz, onde o autor vai trazer questões relacionadas a sua história e a de sua família, começando pelo avô, um sobrevivente de Auschwitz que vem para o Brasil na década de 1940; passando pelo pai, um homem bastante preocupado com a perseguição e as injustiças aos judeus; chegando ao filho (o narrador/autor) que vai pensar sobre si mesmo, sobre as relações de família, sobre a influência de uma geração para a outra e sobretudo, sobre a paternidade, ou melhor, sobre ele tornar-se pai, a perspectiva que justifica a escrita desse livro.

Entre os assuntos abordados ao longo da narrativa estão a incomunicabilidade, a dificuldade de expressão dos sentimentos - até mesmo em função de traumas -, o racismo, o judaísmo e as diferenças entre judeus e não judeus, os vícios como forma de preenchimento de vazios ou mesmo de fuga, além do machismo e da culpa. É interessante observar que o autor vai trazendo tudo isso em pequenas doses, feitas de pequenos capítulos, divididos entre as seções "O que sei sobre meu avô", "O que sei sobre meu pai" e "O que sei sobre mim", que se intercalam. Além disso, ele vai nos entregando bem aos pouquinhos o seu objetivo, o lugar onde ele quer que cheguemos com ele, no sentido de reflexão (essa, aliás, é uma característica do autor, porque no outro livro identifiquei isso também). Ele vai costurando bem aos pouquinhos os vários momentos da vida dessas três gerações e os problemas enfrentados por cada uma delas.

Percebe-se que o autor narra para compreender e curar suas feridas, percebendo que a paternidade redimensiona a vida.

De certa forma, ele passa a entender (ou aceitar) melhor o pai e o avô, mas sobretudo, não quer passar para seu filho aquela herança emocional/psicológica que foi passada para ele. Ele busca uma redenção por meio da narrativa.

Tudo isso faz dessa leitura algo muito intenso e profundo. Como eu disse, foi uma grata surpresa. Aah, sobre o autor, ele é brasileiro, atua como jornalista (além de escritor) e é natural de Porto Alegre, onde a maior parte dessa história se passa. Portanto, quem tem familiaridade com a capital gaúcha, provavelmente vai reconhecer e se identificar com os lugares descritos, bem como com os hábitos de vida mesmo. Especialmente se você viveu a década de 1980.

E assim eu deixo mais uma dica bacana de leitura. Você dificilmente vai querer largar depois de começar. 

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